quinta-feira, 18 de junho de 2020

Impressões, expectativas e atitudes



Impressões, expectativas e atitudes

 

Os tópicos “impressões, expectativas e atitudes” inserem-se nos processos fundamentais da cognição social. Após termos analisado a importâncias das relações precoces no processo do desenvolvimento do ser humano é importante analisar agora as relações interpessoais, ou seja, o modo como nos relacionamos com os outros ao longo da vida e de que forma as interações que estabelecemos definem grande parte do que fomos e somos.


Processos fundamentais da cognição social
 

Quando estudamos a cultura e o modo como os seres humanos a integram através do processo de socialização, compreendemos melhor as diferenças que nos distinguem dos outros animais. Depende, fundamentalmente, da aprendizagem e na diversidade nas diferentes relações que o comportamento humano estabelece com o meio. A maior parte das interações sociais (conjunto de influências recíprocas que se estabelecem entre as pessoas) desenrolam-se na rede complexa dos padrões culturais. Grande parte da nossa vida desenrola-se e organiza-se no contexto de instituições sociais que são orientadas por fatores de origem cognitiva que organizam a forma como entendemos as situações.
“Os indivíduos não reagem às situações, mas sim às interpretações subjetivas das mesmas.” (Atkinson, R.)

Esta questão remete para o processo do conhecimento, ou seja, a cognição social, que é o conjunto de processos que estão subjacentes ao modo como encaramos os outros, a nós próprios e à forma como interagimos. A cognição social refere-se ao papel desempenhado por fatores cognitivos no nosso comportamento social, procurando conhecer o modo como os nossos pensamentos são afetados e condicionados pelo contexto social imediato e a forma de afetarem o nosso comportamento como membros de uma sociedade.
Como temos uma capacidade limitada de processamento de informação relativa ao mundo social, recorremos a esquemas que são estruturas cognitivas através das quais os sujeitos se adaptam e organizam objetos, situações e experiências, agrupando-os segundo as suas características comuns. É a partir destes esquemas que processamos a informação relativa ao mundo social e criamos opiniões sobre nós e sobre os outros.

Processos fundamentais de cognição social:

  • As impressões; 
  • As expectativas;
  • As atitudes
Cognição social 















Impressões

Impressões são noções que se criam no contacto com as pessoas e que nos dão um quadro interpretativo para as avaliarmos. No primeiro contacto que temos com alguém que não conhecemos construímos uma imagem, uma ideia sobre essa pessoa, selecionando alguns aspetos que consideramos mais significativos, ou que realçamos mais tendo em conta a nossa observação: “Deixou-me uma boa impressão”, por exemplo.
Também os objetos nos causam impressões quando contactamos com eles pela primeira vez. No entanto, há diferenças quando se trata de pessoas: a produção da impressão é mútua, na medida em que o outro também produz uma impressão sobre mim; por outro lado, a minha impressão afeta o meu comportamento para com o outro e, portanto, o seu comportamento para comigo, baseando-nos e partindo do princípio de que as características que denotamos nessa impressão são reais na pessoa.
Um dos aspetos mais importantes das impressões é o efeito que têm na relação interpessoal que se estabelecerá no futuro: Somos condicionados por este primeiro encontro e, se mais tarde algumas das características que atribuímos são diferentes, temos tendência a ignorá-las, mantendo a impressão que ficou no primeiro encontro.
A formação de impressões é, portanto, o processo pelo qual se organiza a informação acerca de outra pessoa de modo a integrá-la numa categoria pessoal significativa.

Impressões e categorização


Não é possível armazenar toda a informação referente às pessoas com quem contactamos, pois, o relacionamento está ou pode estar em constante evolução. Assim sendo, reagrupamos-los em diferentes classes a partir do que consideramos serem as suas diferenças e semelhanças – categorização.
Subjacente à impressão está, então, a categorização. No caso das impressões, classificamos a pessoa em categorias a partir dos contactos que temos com a mesma, em que recolhemos informação proveniente do primeiro encontro ou de informação fornecidas por outras pessoas. Por exemplo, se ouvirmos dizer sobre uma pessoa que acabámos de conhecer que ela é humilde, podemos associar-lhe as características de generosa, solidária e simpática. Esta ideia global com que ficamos vai orientar o nosso comportamento, porque nos fornece um esboço psicológico da pessoa em questão e orienta o nosso comportamento reduzindo a complexidade do mundo social o que nos permite agir de forma conveniente socialmente. Segundo a categorização social que serve de guia para a relação interpessoal podemos, então, dizer que incluímos a pessoa numa determinada categoria que contempla três tipos de avaliação:
  • Afetiva – gostamos ou não da pessoa;
  • Moral – consideramos a pessoa boa ou má;
  • Instrumental – se é competente ou incompetente.

A formação das impressões


Na base da formação das impressões está a interpretação, isto é, nós percecionamos o outro a partir de uma grelha de avaliação que remete para os nossos conhecimentos, valores e experiências pessoais. Alguns indícios explicam o modo como formamos uma impressão de uma pessoa, num primeiro encontro:
  • Indícios físicos – remetem para características como o facto de a pessoa ser alta/baixa, magra/gorda, que podem remeter para determinado tipo de personalidade e podem incluir-se expressões faciais e gestos;
  • Indícios verbais – o modo como a pessoa fala surge como um indicador, por exemplo, de instrução e se na sua expressão, reconhecer um sotaque é possível remetê-la para uma determinada região;
  • Indícios não verbais – estes indícios remetem para elementos, sinais, que interpretamos como indicadores: o modo como se veste, como gesticula enquanto fala, são elementos que nos levam a inferir determinadas características;
  • Indícios comportamentais – é o conjunto de comportamentos que se observam na pessoa e que nos permitem classificá-la. O modo como os comportamentos são interpretados varia de pessoa para pessoa e remetem para as experiências passadas, para as necessidades daquele que os interpreta. Daí que um mesmo comportamento possa ter significados diferentes para indivíduos diferentes.
A partir destes indícios, formamos uma impressão global de uma pessoa, a quem atribuímos uma categoria socioeconómica e cultural, um determinado estatuto social. De notar que um mesmo conjunto de indícios pode conduzir a diferentes interpretações, tal acontece porque a formação das impressões é orientada pelos nossos valores e atitudes.
É comum, no processo de formação das impressões, fazermos uma avaliação geral da pessoa a partir de algumas características que observamos ou que nos foi referida por outros – “teoria implícita da personalidade”, isto é, a ideia geral que formamos sobre a pessoa.

O efeito das primeiras impressões


A complexidade da formação das impressões decorre do seu carácter e da multiplicidade de fatores intervenientes. Solomon Asch conduziu uma investigação em que apresentou a diversos sujeitos uma lista de características de duas pessoas. Em seguida, pediu-lhes que manifestassem a sua opinião acerca das pessoas e, apesar de as características serem as mesmas, avaliaram mais positivamente uma delas porque tinha as características positivas em primeiro lugar. Esta e outras experiências levam investigadores a concluir que a primeira informação é a que tem maior influência sobres as nossas impressões. Portanto, a ordem com que conhecemos as características de uma pessoa não é indiferente para a formação de impressões sobre ela.
Estes estudos são importantes porque uma das primeiras impressões é a sua persistência, uma vez que mesmo que recebamos informações que contradizem a nossa impressão inicial, temos dificuldade em alterar as nossas convicções – rejeição a integrar informações. Na década de 90 do século XX, desenvolveram-se várias pesquisas sobre a formação das impressões, que mostraram a influência de outros fatores. Os investigadores chegaram à conclusão de que por exemplo, o humor tem muita influência na sua formação: as pessoas mais felizes criam impressões mais positivas que as que estão, normalmente, de mau humor. 
Primeiras impressões 
Expectativas

Quando conhecemos alguém não nos ficamos apenas com a primeira imagem que resulta desse primeiro contacto: criamos expectativas que decorrem das características que apreendemos nesse encontro. A partir de alguns indicadores, prevemos o seu comportamento e as suas atitudes, isto é, desenvolvemos determinadas expectativas – modos de categorizar as pessoas através do indício e das informações, prevendo o seu comportamento. As expectativas são mútuas, o outro com quem interagimos desenvolve, também, expectativas em relação a nós. Por exemplo, se eu entrar num hospital e vir uma pessoa com uma bata branca, concluo que é um médico.
Neste processo estão envolvidas duas operações básicas: indução e dedução. É pela indução que passamos da perceção à inclusão da pessoa numa categoria. É pela dedução que, a partir do momento em que reconhecemos a categoria a que uma pessoa pertence, passamos a atribuir-lhe determinadas características. Tal como as impressões, as expectativas são facilitadoras da nossa leitura do mundo.
Tal como outros processos cognitivos, as expectativas formam-se no processo de socialização por influência dos nossos valores, crenças e história pessoal. A psicologia social dedica um grande interesse ao estudo das expectativas porque, em certa medida, nós comportamo-nos tendo em conta o que os outros esperam de nós.

Expectativas no mundo social  

Expectativas, estatuto e papel


Um exemplo muito claro da importância das expectativas na vida social é-nos dado pelas relações duradouras que se estabelecem entre pessoas como o marido e a mulher. Ao exercer funções respetivas, há um conjunto de expectativas mútuas que regulam essas relações.
A cada estatuto corresponde um papel, isto é, um conjunto de comportamentos esperados de um indivíduo com determinado estatuto – complementaridade entre estatuto e papel. Numa sociedade, os papéis sociais prescrevem todos um conjunto de comportamentos-padrão, de tal forma institucionalizados que os seus membros saibam quais as reações que os seus comportamentos podem provocar – expectativa de conduta.
O papel do indivíduo é “o conjunto de comportamentos com que legitimamente os outros contam da parte dele”. (Stoetzel)
Assim, as expectativas afetam o modo como os outros interagem connosco, influenciado, por sua vez, a nossa autoimagem e o nosso comportamento. As expectativas positivas geram comportamentos positivos e as negativas comportamentos negativos: a profecia autorrealizava-se.

O efeito das expectativas


Uma área que tem despertado interesse é a que estuda o efeito das expectativas dos professores relativamente aos alunos, e as suas consequências no processo de aprendizagem.
Robert Rosenthal desenvolveu uma experiência em que os professores foram convencidos que determinada turma era muito desenvolvida intelectualmente. Na verdade, a turma era composta por elementos aleatórios que, quando foram avaliados, mostraram um rendimento académico superior aos restantes alunos. Numerosos estudos deste investigador mostraram que como os professores estavam com expectativas de bons resultados por parte de alguns alunos, trataram-nos de forma diferente. Em resposta, as crianças desenvolvem uma autoimagem das suas capacidades escolares e estudam mais – autorrealização das profecias. É o que alguns autores designam por efeito de Pigmalião, isto é, as consequências que advêm do processo de profecia.
O efeito de Rosenthal – aprendizagem afetada pelas expectativas dos professores – tem três componentes:
  • Os alunos em que os professores apostam tendem a ter bons resultados;
  • Os alunos de quem não se esperam grandes resultados tendem a sair-se pior;
  • Os alunos que foram bem-sucedidos, contrariando as expectativas, são vistos de forma negativa pelo professor.
A partir destes resultados, muitas reflexões se têm feito sobre o efeito das expectativas na nossa vida do dia a dia. Há uma relação recíproca entre a perceção que nós temos de nós próprios e a perceção que os outros fazem de nós, e é esta permanente interação que torna as relações sociais tão complexas e fascinantes.

Robert Rosenthal 
Atitudes

É muito comum na linguagem corrente fazer equivaler o conceito de atitude ao de comportamento. Contudo, em psicologia social, o termo atitude tem um outro sentido e significado. Uma atitude é uma tendência para responder a um objeto social – situação, pessoa, grupo, acontecimento - de modo favorável ou desfavorável. Assim, não é um comportamento, mas sim uma predisposição.
As atitudes desempenham um papel fundamental no modo de como processamos a informação do mundo social em que estamos inseridos. Permitem-nos interpretar, organizar e processar as informações. É este processo que explica que face, a uma mesma situação, diferentes pessoas interpretam de formas diferentes. Por exemplo, dois adeptos de clubes distintos irão ter interpretações contraditórias face ao mesmo jogo de futebol.

Componentes das atitudes


As atitudes envolvem diferentes componentes interligadas com especial incidência na infância e na adolescência, sendo elas:
  • Componente cognitiva – constituída pelo conjunto de ideias, de informações e crenças que se tem sobre um dado objeto social. É o que consideramos verdadeiro sobre o objeto.
  • Componente afetiva – conjunto de valores e emoções, positivas ou negativas, relativamente ao objeto social.
  • Componente comportamental – conjunto de reações, de respostas, face ao objeto social. É uma disposição para agir dependendo das crenças e dos valores que se tem relativamente ao objeto social.
É a partir de uma informação ou convicção (cognitiva) a que se atribui um sentimento (afetiva), que desenvolvo um conjunto de comportamentos (comportamental).

EXEMPLO
Uma atitude negativa de uma pessoa relativamente ao tabaco pode basear-se numa crença de que há uma relação entre o tabagismo e o cancro de pulmão (cognitiva). Essa pessoa não gosta do fumo e experimenta sentimentos desagradáveis em ambientes de fumadores (afetiva). A esta atitude estão frequentemente associados comportamentos como não fumar e convencer os outros a não fumar (comportamental).
Se a pessoa pensar que o tabaco atenua o stress, provavelmente as componentes afetiva e comportamental serão diferentes.

Atitudes e comportamento


As atitudes não são diretamente observáveis: inferem-se por comportamentos. Também é possível, a partir de um comportamento, inferir a atitude que esteve na sua origem. Por outro lado, as reações de uma pessoa face a uma situação podem permitir prever a atitude que lhe está subjacente.
É mais provável uma atitude afetar um comportamento quando esta é forte, relativamente estável, relevante para o comportamento, importante e facilmente retida pela memória. As atitudes baseadas em experiências indiretas, como ter ouvido falar, têm menos influência no comportamento que as baseadas na experiência direta.

Psicologia social 


Formação e mudanças de atitudes


As atitudes formam-se e aprendem-se no processo de socialização, no meio social onde estamos inseridos. São vários os agentes sociais responsáveis pela formação de atitudes: pais e família, escola, grupo de pares e os media. Os parentes mais próximos, sobretudo, os pais são como modelos com os quais as crianças se tentam identificar. Na adolescência, tem particular relevo o grupo de pares, isto é, os indivíduos com idade aproximada com que os jovens contactam mais frequentemente.
Atualmente, os mass media têm muita influência na formação de novas atitudes e reforço das que já existem, tudo isto através de publicidade, telenovelas e filmes. É através da observação, identificação e imitação dos modelos que se aprendem, que se formam atitudes. Esta aprendizagem ocorre ao longo da vida, mas tem particular prevalência na infância e adolescência. Isto não significa que depois destas idades as atitudes não possam mudar. Há, no entanto, uma tendência para a estabilidade das atitudes. As experiências vividas pelo próprio podem conduzir à alteração das atitudes. Por exemplo, uma pessoa que é a favor da pena de morte pode mudar a atitude porque viu um filme sobre o assunto que o impressionou. 





1 comentário:

  1. No meu ver, este trabalho esta muito interessante e explicito. Dá para perceber que a minha colega tinha a matéria bem percebida, conseguindo assim passá-la corretamente para os restantes membros da turma. Gostei bastante do trabalho, está bastante positivo.

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